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O corpo do seu filho aprende com o que se repete: entenda como a rotina influencia a saúde infantil

  • Foto do escritor: Barbara Telles
    Barbara Telles
  • 17 de ago.
  • 6 min de leitura

Uma criança que corre no parque, sobe escadas, joga bola, pedala e brinca todos os dias não está apenas “gastando energia”.


Enquanto ela se movimenta, o organismo recebe estímulos que ajudam coração, pulmões, músculos, ossos e metabolismo a se desenvolverem.


O contrário também merece atenção.


Quando boa parte do dia é passada sentada, o movimento é pouco frequente e o tempo livre acontece principalmente diante das telas, o corpo também se adapta a essa rotina.


É por isso que, quando falamos em saúde infantil, não basta olhar apenas para o peso da criança ou para o resultado de um exame. É preciso entender como ela vive todos os dias.



O que significa dizer que o corpo se adapta?

Imagine duas situações bastante comuns.

Uma criança costuma brincar ao ar livre, correr, pedalar e caminhar com a família. Outra passa muitas horas sentada entre escola, carro, televisão, celular ou videogame e tem poucas oportunidades de se movimentar.

Com o passar do tempo, esses organismos recebem estímulos diferentes.

Durante a atividade física, os músculos precisam de mais energia e oxigênio. O coração aumenta o bombeamento de sangue e a respiração se intensifica para atender a essa demanda.

Quando esse estímulo acontece regularmente, a atividade física contribui para melhorar a aptidão cardiorrespiratória e muscular. Também está relacionada a benefícios para saúde óssea, pressão arterial, metabolismo da glicose e composição corporal.

Não significa que uma criança precise treinar como um adulto.

Na infância, correr atrás de uma bola já pode ser exercício. Brincar também é movimento.


Por que uma criança ativa tende a ganhar condicionamento?

Pense naquela criança que começa uma aula de natação ou futebol.

Nas primeiras semanas, ela pode cansar rapidamente. Depois de algum tempo, consegue brincar por mais tempo e tolerar melhor a atividade.

Existe uma explicação fisiológica para isso.

A prática regular de atividade física melhora a aptidão cardiorrespiratória e a resistência muscular. O organismo se torna mais preparado para responder às demandas do esforço.

Isso ajuda a entender por que movimento não deve ser associado somente à prevenção da obesidade.

Uma criança não precisa se movimentar porque precisa emagrecer.

Ela precisa se movimentar porque o movimento faz parte do desenvolvimento saudável.


E quando a criança se movimenta pouco?

Esse é um ponto importante porque, muitas vezes, o sedentarismo infantil passa despercebido.

A criança vai para a escola, faz as tarefas, assiste televisão, usa o tablet, joga videogame e parece ter tido um dia cheio.

Mas quanto desse dia realmente envolveu movimento?

A OMS recomenda limitar o comportamento sedentário de crianças e adolescentes, especialmente o tempo recreativo diante das telas. Maior quantidade de comportamento sedentário está associada a maior adiposidade, pior aptidão física e piores indicadores de saúde cardiometabólica.

Isso não significa que sentar para estudar, assistir a um desenho ou jogar videogame seja proibido.

O problema aparece quando ficar sentado ocupa grande parte do tempo que poderia incluir movimento.


“Meu filho é magro. Ainda preciso me preocupar com atividade física?”

Sim.

Esse é um dos equívocos mais comuns quando falamos sobre saúde infantil.

Peso corporal e condicionamento físico não são a mesma coisa.

Uma criança pode ser magra e ainda assim ter uma rotina sedentária. Da mesma forma, uma criança com excesso de peso pode ser ativa e ter boa capacidade física.

A atividade física beneficia pressão arterial, aptidão aeróbica, músculos, ossos, metabolismo da glicose, cognição e saúde mental. Esses benefícios não são exclusivos de crianças que precisam controlar o peso.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:

“Meu filho está no peso certo?”

Também precisamos perguntar:

“Quanto ele se movimenta?”


Movimento também participa da saúde do coração

Na cardiologia pediátrica, esse assunto ganha ainda mais importância.

Grande parte das crianças começa a vida com bons indicadores de saúde cardiovascular. O problema é que parte dessa condição favorável pode ser perdida ao longo da infância e da adolescência conforme surgem hábitos menos saudáveis relacionados à alimentação, atividade física e peso corporal.

A American Heart Association inclui a atividade física entre os componentes fundamentais da saúde cardiovascular desde a infância.

Criar uma rotina ativa desde cedo, portanto, não é apenas uma estratégia para o presente.

É uma das formas de construir saúde cardiovascular para os próximos anos.


Quanto uma criança precisa se movimentar?

A recomendação depende da idade.

Para crianças de 3 e 4 anos, a Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 180 minutos de atividades físicas variadas distribuídas ao longo do dia. Desse período, pelo menos 60 minutos devem envolver atividades de intensidade moderada a vigorosa.

Dos 5 aos 17 anos, a recomendação é uma média de pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana, predominantemente aeróbica. Atividades vigorosas que fortaleçam músculos e ossos devem fazer parte da rotina pelo menos três vezes por semana.

Mas há um detalhe importante.

Atividade física não significa necessariamente esporte.

A própria OMS considera atividade física qualquer movimento corporal que aumente o gasto de energia. Caminhar, correr, brincar, pedalar e dançar também entram nessa conta.


Meu filho precisa fazer futebol, natação ou outro esporte?

Não obrigatoriamente.

Esportes são excelentes oportunidades de movimento, socialização e desenvolvimento de habilidades. Mas uma criança não precisa estar matriculada em várias atividades para ser considerada ativa.

Um sábado no parque pode ter muito movimento.

Uma caminhada até a escola conta.

Brincar de pega-pega conta.

Andar de bicicleta conta.

Dançar dentro de casa conta.

Subir, correr e pular também contam.

Para crianças pequenas, principalmente, o objetivo não deveria ser transformar atividade física em obrigação. É criar espaço para que o movimento faça parte da infância.


Sono e alimentação também entram nessa história

O material que deu origem a este artigo chama atenção para algo importante: movimento não acontece isoladamente. Uma rotina com pouco movimento, sono ruim e alimentação pobre em nutrientes também influencia a forma como a criança se sente e responde às atividades cotidianas.

Uma criança que dormiu mal pode acordar cansada e ter menos disposição para brincar.

Uma alimentação inadequada pode comprometer a oferta de energia e nutrientes necessários para crescimento e atividade.

E uma criança que passa muito tempo em comportamento sedentário pode perder oportunidades naturais de movimento.

Por isso, saúde infantil não funciona bem quando dividimos tudo em pequenas caixas.

Sono, alimentação, movimento, crescimento e saúde cardiovascular fazem parte do mesmo organismo.


“Meu filho não para quieto. Então ele já se movimenta o suficiente?”

Não necessariamente.

Essa é uma dúvida muito comum.

Ser agitado não significa automaticamente atingir uma quantidade adequada de atividade física.

Uma criança pode levantar várias vezes, andar pela casa e mexer constantemente o corpo, mas passar pouco tempo em atividades que realmente envolvam correr, pular, pedalar, brincar ou realizar outros movimentos de maior intensidade.

Em vez de tentar classificar a criança como “ativa” ou “sedentária” apenas pelo comportamento, observe a rotina.

Ela tem oportunidade de brincar livremente?

Corre?

Vai ao parque?

Pedala?

Caminha?

Pratica algum esporte?

Quanto tempo do dia passa sentada?

Essas respostas dizem mais do que o rótulo de “criança agitada”.


E se meu filho cansar muito mais do que as outras crianças?

Cansaço durante uma atividade intensa é esperado. O que merece atenção é o cansaço desproporcional ao esforço ou uma mudança no padrão habitual da própria criança.

Por exemplo, uma criança que sempre jogou bola e passa a precisar parar frequentemente merece ser observada.

Também é importante procurar avaliação quando o esforço estiver associado a sintomas como dor no peito, desmaio, palpitações importantes ou dificuldade respiratória fora do esperado.

A avaliação não deve começar pela comparação com o colega mais esportista da turma.

Ela começa pela história daquela criança.


A rotina não precisa ser perfeita para ser saudável

Para muitas famílias, imaginar 60 minutos de exercício formal todos os dias parece impossível.

Mas essa não é a proposta.

O movimento pode aparecer em diferentes momentos:

Caminhar um trecho do caminho.

Brincar depois da escola.

Ir ao parque.

Andar de bicicleta.

Dançar.

Jogar bola.

Passear com a família.

Trocar alguns minutos de tela por uma brincadeira ativa.

O que importa é a frequência.

A infância é um período importante para a formação de habilidades motoras e hábitos relacionados à saúde. As próprias diretrizes internacionais tratam essa fase como uma oportunidade para construir uma base que pode acompanhar a criança ao longo da vida.



A rotina da infância produz estímulos todos os dias.

Quando existe espaço para correr, brincar, pedalar, pular e explorar o próprio corpo, a criança desenvolve resistência, força, coordenação e aptidão cardiorrespiratória.

Não é preciso transformar a infância em treinamento.

É justamente o contrário.

Precisamos devolver ao movimento o lugar natural que ele sempre teve na vida das crianças.

O corpo não precisa de perfeição. Precisa de oportunidades frequentes para se movimentar, descansar e receber os nutrientes necessários para crescer.

E aquilo que se repete hoje ajuda a construir a saúde que essa criança levará para os próximos anos.


Avaliação individual também faz parte da prevenção

Se você percebe que seu filho se movimenta pouco, apresenta cansaço diferente do habitual ou tem dúvidas sobre crescimento, condicionamento ou saúde cardiovascular, uma avaliação pediátrica pode ajudar a entender o contexto completo.


Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com profissionais de saúde.



 
 
 

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